Eclipse Total do Sol de 3/11/94


observador: Paulo Bedaque (Clube de Astronomia de Vinhedo e REA)
local: pátio do Hotel Carimã (Foz do Iguaçu - Brasil)
latitude: 25º 33’ S
longitude: 54º 34’ W
instrumento: luneta Projenar D=80 mm, f=1200 mm (f/D = 15)
câmera: Nikon FM2
filme: Kodak EKTAR 100 Asa
filmadora: Panasonic VHSc
fotômetro: Sekonic model L-398
termômetro: Leybold com escala de passo 0,1 ºC

1) Introdução

Pudemos observar o eclipse total do Sol de 3/11/94 em um sítio privilegiado em Foz do Iguaçu (Paraná, Brasil). Neste nosso terceiro eclipse total (Tefé/91, Chuí/92 e Foz do Iguaçu/94) o dia amanheceu meio nublado, mas a cerca de 1 hora do início do fenômeno, as nuvens se dispersaram e, para nosso alívio, pudemos contar com um céu bem aberto. Além de outros grupos (México, Japão, Alemanha etc), nossa equipe era composta, além de mim, também das seguintes pessoas: Sr. Walter Niessner (observação visual), Vera Niessner (fotografia com cassegrain Meade f=1000 mm), Stefan Stegmann (fotografia com luneta Tasco f=900 mm, D=60mm), Christianne B. Stegmann (temperatura e luminosidade), Claudio Callegari (observação visual), Máximo Ferreira (Museu de Ciências da Universidade de Lisboa - registro em vídeo e fotografia com cassegrain Meade f=1000 mm) e Lev Kurochka (Universidade de Kiev - Ucrânia - registro fotográfico da coroa em vários comprimentos de onda com refrator de D=100mm).

2) Variação de temperatura e intensidade luminosa

Na véspera e no próprio dia do eclipse medimos os valores da temperatura em ºC usando um termômetro de mercúrio de excelente precisão preso ao tripé do telescópio. Os valores em função do tempo estão expressos nas tabelas abaixo. Em paralelo medimos a variação da luminosidade usando um fotômetro desses usados por fotógrafos voltado diretamente para o sol. Para reduzir a intensidade de radiação incidente no fotômetro, usamos uma rede metálica que a reduz em um fator de 32. A escala do fotômetro que foi usado indicava valores em foot-candle (1 foot-candle = 10,76 lux). Mais tarde essas medidas foram transformadas em lux e os resultados também aparecem nas tabelas abaixo. Vale ressaltar que o fator de redução em 32, não nos permitiu ler um valor diferente de zero para a luminosidade durante a totalidade, mas, evidentemente a escuridão não era plena. Não pudemos então precisar em lux a intensidade luminosa durante a totalidade.

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         Infelizmente, em função de problemas outros, não pudemos medir, como pretendíamos, das 8:30 h até 12:30 h, mas obtivemos os valores em uma faixa que abrangeu com folga a totalidade (9:50 h às 11:05 h) para os dois dias. As medidas de temperatura e luminosidade ficaram a cargo da Christianne, que fez parte da equipe de observação. Assim pudemos construir dois gráficos, um de temperatura e outro de luminosidade, que apresentamos a seguir. Reparem que a temperatura cai quase que 8 ºC em uma hora, das 9:50 h às 10:50 h. Quando observamos o eclipse total em Tefé/91, constatamos uma queda de temperatura de aproximadamente 6 ºC. Aliás, lembramos que em Tefé não foi possível perceber a mudança gradual na luminosidade durante a parcialidade. Nossos olhos foram aos poucos se adaptando às mudanças e só foi percebido um certo escurecimento nas proximidades da totalidade. Já em Foz do Iguaçu, foi possível notar um escurecimento gradual, aos entardecer já a meio caminho da parcialidade.

         Como era de se esperar, a luminosidade cai quase que simultaneamente ao aparecimento da causa física (diminuição da área do disco solar), mas a temperatura não, pois existe uma certa "inércia térmica" da atmosfera. Assim, o instante de mínima luminosidade não coincide com o instante de mínima temperatura. Por esse motivo, podemos observar uma pequena defasagem entre os dois gráficos de aproximadamente 3 minutos.

         O primeiro gráfico (temperatura x tempo) nos revela que a temperatura, em cerca de 1 hora, caiu quase que 8 ºC. Comparem a variação de temperatura no dia do eclipse com o dia anterior.
        
Já o segundo gráfico, luminosidade x tempo, mostra como caiu violentamente a luz solar presente na atmosfera durante o eclipse.
        
Lembramos mais uma vez que há uma defasagem de mais ou menos três minutos entre o mínimo de temperatura e o mínimo de luminosidade, sugerindo assim uma certa inércia térmica da atmosfera.

 


 

3) Registro fotográfico

Utilizamos o processo de projeção no foco primário, utilizando apenas a objetiva da luneta (f = 1200 mm- Bedaque) e projeção por ocular (f=750 mm - Travnik). Para o sol e para a lua, pode-se determinar o comprimento da imagem no negativo, dividindo-se a distância focal do instrumento por 110. Assim, pudemos obter imagens do disco solar com aproximadamente 11 mm (o negativo tem 24 por 35 mm). No momento da totalidade, com a coroa solar à mostra, a imagem ocupou quase que todo o negativo. Parece-nos que a projeção por ocular é o melhor processo para fotografar eclipses se você puder contar com uma distância focal de pelo menos 1000 mm; focaliza-se mais facilmente, as imagens tem um bom tamanho no negativo e a nitidez é muito boa. Para distâncias focais menores, aí sim, recomenda-se o processo de projeção por ocular, para conseguir-se um aumento maior. Nesses casos, bons resultados também são obtidos com o uso de um teleconverter 2X. Com um filme EKTAR 100 Asa, obtivemos 17 frames da totalidade (Bedaque) e muitos slides (Travnik), variando os tempos de exposição de 1/125 s até 1 s. Com esta gama de tempos pode-se obter bons registros tanto da coroa, como das baixa e alta cromosfera. Pudemos registrar o anel de diamante (na entrada da totalidade), os grãos de Bailey e várias proeminências solares, além da própria coroa.
De posse das fotos, utilizando um scanner de mesa EPSON de 800 dpi, digitalizamos algumas das fotos que foram mais tarde processadas em programas de processamento de imagens. Usei os softwares Adobe PhotoShop, Photo Styler, Halo e Paint Brush 5. Os resultados foram bastante interessantes. Pudemos colorir artificialmente a coroa nas suas várias camadas. Mesmo em preto e branco o resultado é bastante curioso. Pode-se notar os avanços da coroa no seu afastamento ao sol. O software reconhece os diferentes tons de cinza e atribui a cada um deles uma cor falsa. As diferentes tonalidades certamente implicam em diferentes propriedades físicas.
A seguir são mostrados alguns desses resultados.

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Foto digitalizada da coroa solar em
cores falsas (Bedaque)

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Foto digitalizada da coroa solar em
cores falsas (Bedaque)

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Anel de diamante colorido com
cores falsas (Bedaque)

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Foto digitalizada de Travnik também
com cores falsas


4) Registro em vídeo

Usando uma filmadora comum, VHSc, na opção foco manual no infinito e zoom de 6X, fixada sobre o telescópio e aproveitando sua montagem equatorial, obtivemos o registro em vídeo do eclipse. Embora a qualidade da imagem deixe muito a desejar, este processo tem a nosso ver duas qualidades. Em primeiro lugar, acertando adequadamente o relógio da filmadora, pode-se registrar os instantes do eclipse sem ter que se preocupar com um cronômetro. Em segundo lugar, o registro em vídeo mostra o eclipse em movimento. Se a filmadora estiver bem alinhada com a câmera fotográfica, ela pode ser esquecida ligada durante a totalidade enquanto nos preocupamos apenas com as fotos, que exigem mais cuidado.
Mais tarde usando uma placa Vídeo-Blaster em um computador 486 DX2-66 MHz, pudemos aprisionar essas imagens e montar um quadro das várias fases do eclipse. O resultado é apenas satisfatório do ponto de vista visual.