BIBLIOTECA DE BABEL: COMO VIVER PARA SEMPRE (*)

Prof. Alda Romaguera

          Ao ler Biblioteca de Babel, em Borges, pergunto-me se entendi, se o alcancei em profundidade. Releio muitas vezes o texto e descubro, a cada releitura, outro caminho: será que também estou percorrendo os hexágonos infinitos da biblioteca?

         A alegoria do universo me transporta aos céus - não sei porquê - noturnos. O espaço sideral, com planetas e constelações, movimenta-se em minha imaginação. Pareço navegar pela escuridão num misto de sonho, que projeta imagens idealizadas - estrelas, cometas, naves espaciais - e de realidade, que diz saber os planetas em suas órbitas, os sistemas com sua estrela, seus satélites...

         Logo retorno às páginas do livro para construir a simétrica constelação de hexágonos e galerias. A imagem que se forma é a de uma imensa placa-colmeia plana: perfeição geométrica. Os hexágonos tornam-se minúsculos na minha colmeia e de repente estou em uma Liliput invertida, como um Gulliver em miniatura. Cada livro tem as dimensões de um prédio que devo escalar; cada página, um caminho inteiro a trilhar.

Também esta representação não se fixa pois a descrição detalhada continua, fazendo-me contar estantes, e livros, e letras. Cálculos matemáticos sugerem organização, método, disciplina. Mas minha biblioteca não segue os padrões esperados: a simetria se restringe, a desordem se instala numa profusão de cores e tamanhos que negam a contemplação oriental.

         Aqui me detenho e descubro o que procurava: os dois mistérios básicos da humanidade - a origem do universo e do tempo - explicam-se em palavras!

         A palavra escrita faz parte do universo humano e traduz hoje a depressão, causada pela usurpação brusca das dimensões ilimitadas da esperança.

        O universo, assim como a biblioteca, é interminável e se encontra na dimensão do divino. A biblioteca, representada por livros - exemplares únicos - deverá permanecer, mesmo que não existam mais leitores.

        Os livros, simulacros de palavras, contém a totalidade: tudo está escrito. A palavra, representação humana, é ilimitada e periódica. Borges afirma:

"...ninguém pode articular uma sílaba que não esteja cheia de ternuras e de temores". O universo humano poderá se extinguir, mas a biblioteca, universo divino, existe ab aeterno...

         Transporto-me, por páginas mágicas, para a viagem na busca pela eternidade. Entro na estante pela porta do livro "Como viver para sempre", de Colin Thompson, e percorro caminhos para além dos muros da cidade, traçando percursos socráticos. Novamente a sensação de que a biblioteca é o universo me persegue. Nada mais resta à humanidade, a não ser conhecer-se. A reverência à palavra, transcrita em idiomas diversos, confirma o culto humano àquilo que está escrito. Encontro-me com a divindade: palavras são ícones do conhecimento. Fórmulas se misturam em poções-frases que vou sorvendo ao caminhar.

         Em cada livro, pistas para desvendar o mistério insondável: descobrir-me pouco, pequena, frágil, mortal. Sorver o elixir da juventude significa perder a alegria de transformar-me até, finalmente, morrer. E, agora sim, tornar-me partícula universal.

(*) Ensaio produzido para a dissertação de mestrado na Unicamp: "A linguagem narrativa nos projetos de trabalho: Trans/formação", em fase de qualificação.